sexta-feira, 30 de abril de 2021

embarca

embarca na cintilação

 santificante da sua vigia 

 que nos encanta
 

divindade

não sofras sozinha as tuas

 tristezas e pesares que não

 podes ignorar a sua bondosa 

presença a sua divindade o seu

 divino enleio 
 

noite

a noite oculta de magia

 seja ela um manto de trevas

 carregadas de insegurança 

e mistérios que sempre terei

 no céu estrelas
 

certa luz

certa luz de tarde e aurora

 que em meu peito a recolhi

se em meu peito que uma

 luz eterna dà que nada

 consiguirà que não venha de ti

estamos

estamos de igual partido

 não valho mais do que vales

 chegamos ao mesmo  mal

 porque desvios distantes 

olha - me pois como dantes

sorri como antas não fales
 

ferido

tambèm a mim me hão ferido 

sem eu saber defender - me

 e a minha alma roja inerme

 como o teu corpo exibido
 

sorri

sorri que è preciso mais

 que a vil contracção fria

 que atiras à freguesia por 

dever de profissão para que 

em meu coração o teu sorriso

sorria

 

sorriso

que importa que o teu sorriso

não tenha a graça que tinha 

se ao lábio e aos olhos te vinha 

descido do paraíso

 

afogar

a rosa branca desfolhou - se 

logo que o vento a abanou 

boquinha de riso doce mal sorriu

 e jà chorou
 

palavra

vou - me a dizer não me atrevo

 vou - me a escrever nada escrevo 

vou - me a falar mas não devo posto

 deve - se falar
 

cèus

caiu dos céus uma estrela 

quando olhavas o sol oposto 

não fugiste da janela caiu 

e queimou -te o rosto
 

grito

atiro os braços e caem grito 

e os meus gritos não saem 

dou ais que me ecoam em ecos 

 se esvaem de ais que não pude soltar
 

cipreste

morre - me a voz na garganta

 que tanta pena sò essa tanto

me espanta que me tira a voz

e o ar
 

Sombra dos dias a vir

talvez  tu não acredites

mass não há uma única

 respiração do meu dia 

em que não penso em ti
 

quinta-feira, 29 de abril de 2021

suavidade

em ti a suavidade 

a força a medida exacta 

a palavra uma sò vez dita
 

em ti

em ti minha dignidade

ò sopro ò renovação

 incessante pura e veemente

 como aço a raiva e a doçura 

do nosso desejo

 

sò em ti

tu ès o tempo em ti minha

inteira condição

minha miséria e grandeza

minha plena humanidade
 

em ti

em ti existo em ti encontro - me

em ti espero hoje como ontem e amanhã  inexoravelmente rebenta ò árvore

 abandonada no inverno do áspero caminho

canta ò ave intranquila do amor teu sonho

tua planície

 

beleza

procuremos somente a beleza 

que a vida è um punhado infantil

 de areia ressequida um som de água

ou bronze e uma sombra que passa
 

flor da musica

a flor da musica se fará bronze antigo

 em cadência que rezava marés em túnica

 um dia se fará secos polinómios e vinho

 alegre ao som de ângela e haverá geometria

 descritiva
 

tempo

hà quanto tempo a esqueceste 

o vento dedica - se ao ritmo 

das estações vem com o ruído

 dos comboios com a chuva 

das árvores esconde - se nos

 tanques onde a morte se abriga

um dia se fará mármore nesta ténue

espuma de embriagues

 

puro ou impuro

da - me o que morre  o que não morre 

o que suspeita sem ferir o que abre as 

feridas descendo descendo das vinhas

 para o rio o teu corpo aparece muitas 

 vezes nos espelhos nos espelhos è como

uma tarde de inverno sobre as coisas que

 matam esquece onde eu esqueço ainda esse

 sinal sem lugar nem voz reinventa a história

 do mundo por verso apenas reabre o tempo 

abre as janelas os vidros deixa ver a manhã

 que nos desperta
 

quarta-feira, 28 de abril de 2021

pacto

sou sò eu que tu tudo

no sitio muito bem

então declaremos a paz

luta a luta inútil havereis

de notar quem desiste

da estúpida guerra
 

nunca me faltes

ès a alta montanha onde

 se vislumbra o amor ès

 o canto da cotovia a luz

 em noite escura ès o arco íris

 o sorriso que aproxima ès o cuco

que anuncia a vitória ès  o som que

 embala e faz dançar ès  a flor que brota

num jardim por semear ès o veludo sinfonia

que embala o vento ès o branco da bruma

peço - te em casamento
 

território do amor

isto podia ser hiperbólico 

mas não è porque existe 

o teu corpo um corpo podia

 ser um território calmo onde

repousar mas não è porque

existe o perfume do teu corpo

 que não me permite repousar

em ti seria uma batalha perdida

mas eu contigo não me importo

perder foste tu que me fizeste vencedor

 

ès o sol

 Ès o sol a terra o nascimento de tudo

e eu morro mais um pouco cada vez que

 partes e levas e levas um pedaço de mim

sò me pergunto

e sò me pergunto

 onde estás tu que 

desfocaste todas as

 imagens a minha

 volta os vermelhos
 

conheço outras vidas

conheço outras vidas 

se è que posso chamar vida 

são corpos marionèticos 

sem  cor
 

o teu olhar è o ar que eu respiro

respiro porque posso

ver o teu olhar

 a inundar - me a visão

 de cores e amor

o brilho de criança

no teu olhar eu renasço

para o mundo

 

o teu sorriso

o teu sorriso è o próprio

mar a envolver - me a pele

a molhar -me à saliva

 è o infinito que alcanço

na leve bruma da manhã

que nasce no teu olhar
 

nunca

nunca me faltem

palavras nem silêncios

não preciso de um para

sempre necessito de um

 infinito no momento 
 

laço

num laço profundo

gosto que me devolvam

as palavras num sorriso

num olhar de lua cheia

no silêncio de neblina matinal

penso que a paz è isso devolverem

as palavras num olhar de lua cheia

no silêncio de neblina matinal
 

sinto isto dentro de mim a bater fortemente

quando escrevo è mais

do que uma vontade

è uma necessidade de elevar 

 as palavras para que o vento

 as leve atè ti para que as palavras

não criem redemoinhos no meu

cérebro e me embrulhem no estômago

 

rosto

este rosto não tem mascara 

o texto não tem nem quer unidade

 sò calor e humildade ar de uma fala 

para um fôlego já è diferente tudo o

que eu pari posso matar estou a espera

 de um livro não confundo  plenitude

com literatura e falar de arte para  o umbigo

não faz muito o meu gènero
 

metàforas

certas metáforas começam

 a fruir reais as coisas tem 

de ser de quem as estima

 e não de quem as possui
 

mãos

as minhas mãos não são iguais

as minhas pernas são apenas

 árvores os pès raìzes os poemas

de amor jà foram escritos ditos

e escondidos excepto um o da

proporção amar e ser amado

na lâmina do mundo inteiro

mulher homem criança animal

etc pelo que lhe desejo a mesma

 febre que eu sinto
 

por te amar assim deste jeito sem jeito

jogas preciosas não precisas

tens uma pérola que não se

precipita que me dàs pede toda 

e não diz tudo ou nada nem sonha

nem avisa tem um anel de estrelas

sò interessa a inveja e o cometa

o que importa è a forma como a 

tua mão ou a minha passam uma

ténue pela outra ou então pela

força não tem pescoço mas um

càlice que ergue uma taça de luz

à raìz

 

TEMPO

Uma ternura antiga

a verter horas novas

pode impedir à pressa

o relògio da caixa alta

de bater as lágrimas

uma a uma as gotas

a tempo mas incertas

a correr das telas

o irritar das balas

o longo percurso

que se chama a nossa voz 

a vez de temos causas e proteger as asas
 

vivemos

vivemos um instante denso 

 rico e único o testemunho o parto 

de mais um ou dois ou três ou mais 

um sentido dado a luz e a humanidade

 éramos muitos numa mesa de quatro

eu tu e ela as palavras 

pedras

pedras vivas ilhas reinos novos

qalmas profundas da cor de lagoas

filhos viagens crónicas de povos

e numa eternidade de três horas
 

Luz

mais veloz que a luz era esse olhar entre cruzado

 lia - te o espanto adivinhava - to no brilho as

 palavras jorravam em castas empurrando o tempo

enrolavam - se as gotas nos verbos chamando à vida 

à fantasia e dando aos nomes que proliferos fluíam de nòs

 

Bm aventurança das palavras

Felizes as palavras ricas de ideias porque terão

quem as escute ! Felizes das ideias que encontram

palavras que lhes deram forma porque farão delicias

dos sàbios sequiosos !  Felizes das letras que geram

palavras e sentidos porque construirão a sua eternidade

Felizes os livros brancos que souberam acolher a escrita

desenhos de letras prenhes de sentidos porque irão florir

nas pombas e oliveiras ! Felizes dos homens que abriram

os seus olhos à brancura das palavras porque a eles foi dado

o dom da sapiência o eterno conhecimento da bondade !

 Felizes dos lábios e dos corações que soletram pureza mãe amor !
 

o poeta

o poeta è pintor em busca da luz

 por entre as nuvens e cor

 escultor de rostos para além da pedra

artesão carinhoso de peças frugais 

construtor de palavras desperta os sentidos

criador de horizontes de rios fecundos

pesquisador eterno

no regresso a fonte com sede da verdade

a vida è um eterno cruzar do mar interior rumo

 a um norte em busca de um corpo de amor ao sabor 

do destino do querer e da sorte
 

felizes

felizes das letras que geraram palavras e sentidos 

porque construirão a sua eternidade felizes dos livros

 brancos que souberam acolher a escrita desenhos de

 letras prenhes de sentidos porque irão florir nas pombas

e oliveiras felizes dos homens que abriram os seus olhos

à brancura das palavras porque a eles è dado o dom da

sapiência o eterno reconhecimento  da bondade felizes dos

lábios e dos corações que soletram pureza mãe amor
 

aventurança das palavras

felizes das palavras ricas de ideias

 porque terão quem as escute felizes

 das ideias que encontram palavras 

que lhe deram forma porque farão 

as delicias dos sábios sequiosos
 

escutar

enquanto não se esgota o tempo

 de falar talvez eu tenha tempo enfim

 para te escutar porque eu sei que tambèm

 tu terás das tuas e enquanto eu andar por

 perto contigo a devagar de rua em rua

aos meus ouvidos dirás outras histórias

que serão tal e qual como a que ouviste

sem tirar nem por e tu choraste e riste nos

 cinco minutos da minha lenga- lenga

 

admirar

do tempo que me deste para eu te contar

 ainda falta muito vais - te admirar do velho

 poeta perdido sem tento perguntando à lua

 pelo vento do menino rico que na rua procura

 o que não encontra numa casa nua de mim e do

 ouro de aqui e de além histórias como estas serão

 mais de cem
 

tempo

se tiveres algum tempo

 para me escutares muitas

 histórias eu terei para te contar

da vizinha do lado sem marido

 e sem pão com o corpo rasgado

 e o vestido no chão do filho cansado 

de tanto escutar sempre o mesmo fado

no lugar de criar da moça bem feita a quem

nada falta e fica a espera das sobras da malta
 

fala

deixaste - me todo

 o tempo do mundo 

para falar ouvir e

 pensar falei alto 

e do muito que disse

calei fundo enquanto

o sol não parava de rodar

agora sò espero que cheguem

 novamente os cinco minutos

 do teu tempo se acaso tiveres

 tempo para tu contares e eu escutar
 

apenas

deixaste - me  falar quando

  o que eu cria era escutar

 apenas tu me ouviste e sem

 te despedires perdi - te de 

vista não sei se partiste

 

Ò vorazes Vozes

de mecânica velocidade tapando o horizonte com violentos leques de retórica ò meu amor ainda vivo eu quero ser a tua voz lúcida e ardente pa...