segunda-feira, 26 de setembro de 2022

Ò vorazes Vozes

de mecânica velocidade

tapando o horizonte com

violentos leques de retórica

ò meu amor ainda vivo

eu quero ser a tua voz

lúcida e ardente para conjugar

os arcos dos teus membros lacerados


para que surjas enfim com o esplendor

do teu leito materno !

 

por isso

amor està irado comigo

ma não me mata se exemplo

devo ser para futuros rebeldes

se os por nascer devem aprender

com o retalhar e despedaçar de mim

mata - me e disseca - me  amor

porque esta tortura vai contra

seus próprios fins carcaças suplicadas

não servem para anatomia
 

esta face pela pele

podia dominar e mudar a idolatria

a qualquer terra

estas face que onde quer que chegue

retira frades do claustro mortos das

tumbas e pode fundir ambos os pólos

de uma vez abastecer desertos com cidades

e abrir mais minas na terra do que pedreiras

que já existem
 

mesmo

se tu nada deres ainda assim

ès justo porque não confiei

nos teus primeiros sinais

as vilas que resistem atè que forte

artilharia as sujeitem pela lei

da guerra não impõem condições

iguais è o meu caso na guerra do amor

não posso negociar o perdão após ter 

obrigado o amor a mostrar a sua face
 

dà - me

 

a tua fraqueza faz - me duplamente

cego como tu os teus de olhos e mente

amor nunca deixes saber que isto è amor

ou que o amor è pueril  não me deixes

saber que os outros sabem que ela sabe

da minha dor que essa afronta - me torna

em minha própria nova dor

não peço

agora permissão para fingir

uma lágrima suspiro juro

 não solicito para que obtenhas

um Non Obstante sobre a lei natural

estas são prerrogativas inerentes a ti

aos teus ninguém  as deverá abjurar

a não ser que fosse servo do amor

O câmbio do amor

qualquer outro diabo

que não tu daria

por uma alma algo

em troca na corte

teus colegas todos

os dias dão a arte da rima

da caça ou do jogo por aquelas

que antes a si pertenciam

somente eu o que mais deu

nada tenho mais infeliz


por ser mais vil sou avultado
 

era no teu seio

de água materna que eu dormia

e nas tuas amplas pregas

è que eu lia a majestade

de um povo sacrificado

e nas tuas mãos via o ardente

 vermelho da liberdade inspirada

pela unidade viva

por onde se escoou essa virtude


forte que insuflava na palavra o seu timbre

nobre


 

A minha raiva

è santa e implacável

o meu virtuosismo sangrento

e sagrado quando falo do amor

devastado por uma funesta poeira

sinto os músculos de bronze incandescente


como se de algum modo ele em mim

se escarnasse
 

Passamos uns pelos outros

em anónima coexistência

em passos vãos

que sendo se equivalem

a não serem

sò os amigos quebram


esta monótona identidade

com acenos de uma comunidade viva


que não somos chama a esta coexistência

sociedade que não è mais do que ter perdido a pàtria


a sua fisionomia sagrada as suas maternas coxas

oh ! ...  em que muralha està a estatura oblíqua


desse seio de água e desse vento regeneradores

que eram a presença viva da vida unificada
 

Estes são

os meus semelhantes

e decerto são porque respiramos

a mesma poeira

mas para eles è o único espaço

de existência e  para mim o que

deverá ser purificado por um

vento que ignoro donde virà
 

Quem escreve

procura abrir espaço

numa muralha tão opaca

mas tão vaga e cinzenta

que esse espaço de branca identidade

não è mais que um aceno à possível

liberdade para além da sua glória perfumada
 

chamo amor

de profundas veias essa  relação

viva entre os homens se ela houvesse

e não esta relação de anónima indiferença

e de vaga identidade flutuante sem cópula

e sem os templos brancos com jardins


de um ócio voluptuoso

è por isso que estamos condenados


a solidão de não pertencermos a dilatada força

que constitui um Universo  Projecta um Horizonte


de Humanidade Viva em floração unânime


somos apenas cúmplices  da nossa inabilidade e dos ornamentos

com que a revestimos para parecer o que somos e ser quem parecemos
 

domingo, 25 de setembro de 2022

sinto a tua ausência

presente nesta imensa solidão

aparto - me de ti para não cair

 do sufoco dentro de mim oprimido


o bater ardente deste meu nobre coração

que pulsa dentro de mim amando - te

intensamente
 

lamento apaixonado

por ti

amando - te no silêncio
 

na imensidão

do universo o silêncio

da tua voz permanece

escorrem - me lágrimas

no meu rosto por te amar

em cada gota existe uma

esperança futura no amor

e em ti que tanto amo !
 

uma estrela a apagar - se

na treva de um caminho

entre dois túmulos

por isso precisamos de falar

baixinho pisar com leveza

ver a noite e dormir em silêncio

amar e colher a flor preciosa

do ser no amor
 

por te amar assim

deste jeito sem jeito

para te amar

encontrei a luz

rasguei

o céu entrei no coração

do universo

amando - te intensamente

eternamente por te amar assim
 

a minha alma magoada

è um barco âncorado

no porto da tua indiferença
 

Alguns pensamentos

e um ramo de liberdade

será clemente voltará

a ser Deusa mãe para nos

colher por fim e guardas

para sempre no calor

do seu seio a plenitude

da nossa tão esperada

paz
 

Não estejas

longe de mim um dia que seja

porque não sei dizê - lo è longe

o dia estarei à tua espera como

nas estações quando em algum sitio

os comboios adormeceram

não te afastes uma hora

porque então nessa hora se juntam

as gotas da insónia e talvez o fumo

que andava a procura de casa

venha matar ainda o meu coração


perdido


quem ama è diferente de quem è

todos os dias agora acordo com alegria


e pena

antigamente acordava sem sensação nenhuma

acordava apenas
 

Pastor do monte

tão longe de mim

com as tuas ovelhas

que felicidade è essa que pareces ter

a tua ou minha ?

a paz que sinto quando te vejo

pertence - me ou pertence - te ?


não  nem a mim nem a ti pastor

pertence sò a felicidade e à paz


nem tu tens porque não sabes

que a tens ?

nem eu a tenho

porque sei que a tenho


ela è ela sò e cai sobre nòs como o sol

que bate nas costas e te aquece


e tu pensas noutra coisa indiferentemente

e me bate na cara e me ofusca


e eu penso no sol
 

Construir uma personalidade

nem todos estão predestinados

a terem a oportunidade de criar

a sua própria personalidade

a maioria permanece numa cópia

de um tipo de personalidade

sem nunca chegarem à experiência

de se tornarem um individuo com

identidade própria mas aqueles que

conseguem inevitavelmente descobrem 

que a luta pela personalidade envolve


o conflito com a vida normais de pessoas comuns

e os valores tradicionais e convenções burguesas


que defendem


a personalidade è o produto entre duas forças opostas

o impulso de criar uma vida própria e a insistência


do mundo em que nos rodeia em que nos conformamos

a ele


ninguém consegue desenvolver uma personalidade a não ser

que esteja mentalizado para passar por experiências revolucionárias


a extensão dessa experiência difere claro de pessoa para pessoa

e tudo o que se tem e se faz para si próprio acaba por cair num


buraco e de nada valeu

para isso necessita de uma outra eternidade e de acreditar


que não trabalhou apenas para os vermes por isso existem

a mulher e os filhos o negócio ou o escritório e a pàtria 


para que se tenha a noção de que o esforço diário e as calamidades

tem sentido assim uma pessoa è mais feliz quando vive para mais


alguém e não sò  para si sò assim como a capacidade de conduzir uma vida

que è verdadeiramente pessoal e única

 

A busca da verdade

a verdade è um ideal tipicamente jovem

o amor por seu turno um ideal de pessoas

maduras e daquelas que se esforçam para

enfrentarem a diminuição das energias

e a morte as pessoas que pesam sò deixam

 de ambicionar a verdade quando se dão conta

que o ser humano està extraordinariamente  mal

dotado pela natureza para o reconhecimento

da verdade objectiva pelo que a busca da verdade

não pode ser a actividade humana por excelência


mas tambèm aqueles que jamais chegam

as tais conclusões fazem no decurso


das suas experiências inconsciente um percurso

semelhante ter consigo a verdade o reconhecimento


conseguir distinguir entre o bem e o mal e em consequência

disso poder julgar e punir sentenciar poder fazer e declarar


a guerra tudo isto è  próprio de jovens e è a juventude que assenta

bem se porém quando envelhecemos continuamos a ter - nos a estes ideais


fenece já se si pouco vigorosa a capacidade de despertar que possuímos

a capacidade de reconhecer instintivamente há verdade sobre humana

 

A falsa unidade

nenhum eu nem mesmo o mais ingénuo

è uma unidade antes sim um mundo

extremamente multifacetado um pequeno

céu multifacetado um pequeno céu estrelado

um caos de formas estádios e condições


heranças e possibilidades

o facto de cada um por si


aspirar a considerar o caos

uma unidade e falar do seu eu


como se tratasse de uma manifestação simples

fixa solidamente moderada claramente delimitada


esse engano que è inerente a qualquer ser humano

mesmo superior parece ser uma necessidade


uma exigência da vida como a respiração ou alimentação

o erro assenta numa simples transferência de corpo


todo homem e uno de alma nunca 
 

A sabedoria da velhice

aquele que envelheceu

e segue atentamente esse

processo poderá observar

como apesar de as forças

falharem e as potencialidades

deixarem de ser o que era

a vida pode ser atè bastante tarde

ano após ano e atè ao fim ainda

ser capaz de aumentar e multiplicar

a interminável rede das suas relações


e independência e como desde que a memória

se mantenha desperta nada  daquilo que è transitório


e já se passou se perde
 

A fronteira

entre a juventude e a velhice

creio  que se pode traçar

uma fronteira muito precisa

entre juventude e a velhice

a juventude acaba quando termina

o egoísmo a velhice começa

com a vida para os outros ou seja

os jovens tem muito prazer e muita

dor com as suas vidas porque eles vivem

sò para eles por isso todos os desejos


e quedas são importantes todas as alegrias

e dores são vividas plenamente e alguns


quando não vêem os seus desejos cumpridos

desperdiçam toda uma vida isso è a juventude


mas para a maior parte das pessoas vem o tempo

que tudo se modifica em que vivem mais para 

os outros não são por virtude mas porque è assim


a maior parte constitui família pensa - se menos

em nòs próprios e nos nossos desejos quando

se tem filhos


outros perdem o egoísmo num escritório

na politica na arte ou na ciência


a juventude quer brincar os adultos trabalhar

não há quem se case para ter filhos mas quando


chegam modificam - nos e acabamos por perceber

que tudo aconteceu por eles


da mesma forma a juventude gosta de falar na morte

mas nunca pensa nela com os velhos acontece o contrário


os jovens acreditam ser eternos centram todos os desejos e pensamentos

sobre si próprios os velhos já perceberam que o fim vai chegar e que tudo


o que se tem e se faz para si próprio acaba por cair num buraco e de nada

valeu por isso necessita de uma outra eternidade e de acreditar que não trabalhou


para os vermes por isso existe a mulher e os filhos o negócio ou o escritório

e a pàtria para que se tenha a noção de que o esforço diário e as calamidades


têm um sentido assim uma pessoa è mais feliz quando vive para mais alguém

e não para si sò


mas os velhos não devem fazer disso um heroísmo que não è do mais irrequieto

jovem que resulta o melhor dos velhos o que não è verdade para aqueles que já

na escola agiam como velhos


 

a arte de viver pela fantasia

a fantasia è a mãe da satisfação do humor

da arte de viver apenas floresce alicerça

num íntimo entendimento entre o ser humano

 que  vivamente o rodeia esse envolvente não

tem de ser belo singular ou sequer encantador

basta que tenha tempo para ele e nos habituarmos

è sobretudo isso que nos falta hoje
 

nada fica

nada somos um pouco ao sol

e ao ar nos atrasamos da irrespirável

treva que nos pese da húmida terra

imposta cadáveres adiados que procriam

leis feitas estátuas vistas odes findas

tudo tem cova sua se nòs carne a que um

instinto sol dà sangue temos poente porque

não elas somos contos cantando contos
 

como são belos

os teus seios

foram feitos a medida

das minhas mãos

pousa - os na minha boca

e conta - me a tua história


não tens história não tens noite

nem vazio nem praia branca ?


fala - me então do sol

da migração dos pássaros


da imensidão das estrelas

fala - me de ti


antes de possuíres um nome

uma história


sim


em qualquer parte lançaremos os nossos corpos 
 

nada podeis

contra o amor contra a cor

da folhagem contra a caricia

da espuma contra a luz nada

podeis podeis dar - nos a morte

a mais vil isso podeis e è tão pouco
 

como são belos os teus seios

trémulas palavras deixe

que neles eu me queime

como quem se deita num rio

sinto a terra mover - se iluminas

as águas e as estrelas

o percurso è longo

o silêncio montanhoso

debruço - me na tua solidão

se a paixão è feita sua não sei

se tudo è uma coisa sò não sei


que os dois cordões de um sò

bem sei no cego que a paixão


è o meu forjo

bem sei porque queima e è gostosa


não sei que o amor è bem de deus

bem sei que seja fogo e suba ao cume

das águas semanais e duras e cante 

invada inunde


è urgente descobrir rosas e rios

e manhãs claras


caì o silêncio nos ombros e a luz impura

è urgente o amor è urgente permanecer
 

se perderes a magia

perdes tudo

o que sobrar de ti

não não chega nem

para cumprimentar

o vizinho
 

tenho

a receita para morrer novo

envelhecer primeiro
 

ah !

ser indiferente ! è do alto poder

da sua indiferença que os chefes

dominam o mundo ser alheio

atè a si mesmo ! è de alto sentir

alheamento que os mestres dos santos

dominam o mundo ser esquecido

que existe ! è de alto desse esquecer

que os deuses dominam o mundo

não ouvi o que dizias e vi sò a musica

 e nem essa a ouvi


tocavas e falavas ao mesmo tempo

com quem ?


com alguém em que tudo acabava

no dormir do mundo !
 

a mulher que eu amo !

como são belos os teus seios

foram feitos à medida das minhas mãos

pousas na minha boca e conta - me a tua

história não tens história ? fala - me então

do sol da migração dos pássaros um nome

uma história sim em qualquer parte

 lançaremos os nossos corpos relva

alfaias efémeras armas exíguas
 

a vida

corre atrás de nòs para roubar

aquilo em que cada dia temos

menos
 

è bom

ter - te que tudo o resto

se torna secundário e è

esse o problema 
 

a morte è a forma

mais silenciosa de comemorar

uma vida inteira
 

de

tanto a enrolares com mentiras

a verdade è uma múmia mentirosa
 

no altíssimo de ti

serás humilde porque

não há na vida muita

coisa justa
 

a paixão

è a posse do mundo

nada menos que isso
 

a vida oferece - nos tudo

atè ao dia em que tudo devolvemos

à vida e o pouco tempo que nos foi

concebido mesmo quando dele gozamos

uma sensação de permanente sucesso

não è mais afinal que um fracasso bem


sucedido
 

sou apenas um escritor

um cultivador

um jardineiro

um florista

a minha felicidade

flutua entre


o estrume que disponho na raiz das palavras

e o aroma que me excita quando acabo de as colher
 

A liberdade


 è um vinho de excelência

não faz sentido que não o compartilhes

a sedução de ambos ajuda - nos

a viver è o perfume da pele

a pele do vento


o segredo com que a flor atrai a abelha

as árvores amam - se e atè mesmo as pedras

partilham o amor entre si o verde perdeu - se

de amor pelo azul

a

dor vesti - a de brocados

fi - la cantar um choro

em melopeia  ergui - lhe

um trono de oiro imaculado

ajoelhei de mãos postas

 e adorei - a por longo tempo

assim fiquei prostrado moendo

os joelhos sobre lodo e areia

e as multidões desceram do povoado

que a minha dor cantava de sereia


depois rufiaram alto asas de agoiro !

um silêncio gelou em derreador e eu


levantei a face a tremer

Jesus ruíra em cinza o trono de oiro


e misèrrima  e nua a minha dor ajoelhara

a meu lado sobre o lodo
 

não

vou por - te flores de laranjeiras no cabelo

nem fazer explodir a madrugada nos teus olhos

eu quero apenas amar - te lentamente como se

todo o tempo fosse nosso como se todo o tempo 

fosse pouco como se nem sequer houvesse tempo

soltar os teus seios despir tuas ancas apunhalar 

de amor o teu ventre
 

não

não foi Guevara quem tu pariste

foi o grito do povo azul e triste

na noite que chorei luas de lama
 

eu

nasci quando ninguém

estava à porta sò a chuva

è que teimava molhar os lençóis

da tua cama
 

Nos

mastros adejam as gaivotas

era Fevereiro e a noite 

um pesadelo da chuva


que caia algumas gotas

quiseram repousar no teu cabelo
 

Ò vorazes Vozes

de mecânica velocidade tapando o horizonte com violentos leques de retórica ò meu amor ainda vivo eu quero ser a tua voz lúcida e ardente pa...