domingo, 18 de setembro de 2022

Raiz do orvalho

sou agora menos eu

e o sonho que sonhara ter

em outros leitos despertam

quem me dera acontecer

essa morte de que não se morre

e para um outro fruto tentar - me

seiva ascendendo porque perdi

a audácia do meu próprio destino

soltei ânsia do meu próprio delírio

e agora sinto tudo o que os outros


sentem sofro do que eles não sofrem

anoiteço na sua lonjura e vivendo


na vida que deles desertou ofereço o  mar

que em mim se abre à viagem mil vezes


adiada de quando em quando me perco

na procura a raiz do orvalho e se de mim


desencontro foi porque de todos os homens

se tornaram todas as coisas como se todas


as coisas me olhassem com os olhos de todos os homens

assim me debruço na janela do poema escolho a minha


própria neblina e permite - me ouvir o leve respirar dos objectos

sepultado em silencio e eu invento o que escrevo escrevendo para


me inventar e tudo me adormece porque tudo desperta a secreta voz

da infância ama - me demasiado as coisas de que me lembro e eu


me entrego como se me furta - se a sonolenta carícia desse corpo

que faço nascer dos versos que livremente me condena 

 

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