e o sonho que sonhara ter
em outros leitos despertam
quem me dera acontecer
essa morte de que não se morre
e para um outro fruto tentar - me
seiva ascendendo porque perdi
a audácia do meu próprio destino
soltei ânsia do meu próprio delírio
e agora sinto tudo o que os outros
sentem sofro do que eles não sofrem
anoiteço na sua lonjura e vivendo
na vida que deles desertou ofereço o mar
que em mim se abre à viagem mil vezes
adiada de quando em quando me perco
na procura a raiz do orvalho e se de mim
desencontro foi porque de todos os homens
se tornaram todas as coisas como se todas
as coisas me olhassem com os olhos de todos os homens
assim me debruço na janela do poema escolho a minha
própria neblina e permite - me ouvir o leve respirar dos objectos
sepultado em silencio e eu invento o que escrevo escrevendo para
me inventar e tudo me adormece porque tudo desperta a secreta voz
da infância ama - me demasiado as coisas de que me lembro e eu
me entrego como se me furta - se a sonolenta carícia desse corpo
que faço nascer dos versos que livremente me condena

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