com os punhais do frio
pela manhã foi quando
te feri que um cão ladrou
das rosas veio o cheiro
da hortelã
com os punhais do frio
pela manhã foi quando
te feri que um cão ladrou
das rosas veio o cheiro
da hortelã
a tua ausência apenas o coração
pulsando a solidão antes de ti
quando o teu rosto doía no meu
rosto e eu descobri as minhas mãos
sem as tuas e os teus olhos não eram
mais que um lugar escondido onde
primavera refaz o seu vestido de corolas
e não havia nome para tua ausência mas
tu vieste do coração da noite dos braços
da manhã dos bosques de Outono
tu vieste e acordas todas as horas
preenches todos os minutos
acendes todas as fogueiras
escreves todas as palavras
um canto de alegria desprende - se dos meus dedos
quando toco o teu corpo e habito em ti e a noite não existe
porque as nossas bocas acendem na madrugada uma aurora
de beijos
oh meu amor doem - me tanto os braços de te abraçar
trago as mãos acesas a boca desfeita e a solidão acorda
em mim um grito de silêncio quando o medo de te perde
è um corcel que pisa os meus cabelos e se perde depois
numa estrada deserta por onde caminhas nua
aqui nem bem nem mal
aqui se alguém não è ninguém
è porque a gente nasce de um modo
Ocidental vivem uns bem e outros
mal e afinal è natural
naturalmente que haja gente tambèm
que è gente que è gente de bem e gente
que è apenas gente Europa Acidental
o mal è ter na nossa frente um mar de sal
um mar de gente que de repente è assim
mesmo de repente fica vazio e sem ninguém
se um dia por mal ou por bem quiser ser gente
sobre o lume abrir o pão a golpe
do machado soltar pelo flanco
os cavalos de espanto
fazer do corpo um barco e navegar
a pedra regressar devagar ao corpo morno
beber um outro vinho pisado por um astro
possuir o fogo ruivo sobre a própria casa
mas existes por isso
os deuses não existem
não existe a solidão e apenas
dói -me a tua ausência como
uma fogueira ou um grito
não me perguntes como mas
ainda me lembro quando no
Outono cresceram no teu peito
duas alegres laranjas que eu apertei
nas minhas mãos e perfumaram depois
a minha boca
eu sei deixa - me inventar - te
ao è um sonho juro são as minhas mãos
sobre a tua nudez como uma sombra no deserto
è apenas este rio que me percorre há muito e desaguar
em ti porque tu ès o mar que acolhe os meus destroços
è apenas uma tristeza inadiável uma outra maneira de habitares
em todas as palavras do meu canto tenho construído o teu nome
com todas as coisas tenho feito amor de muitas maneiras docemente
desesperadamente à tua procura atè me dar conta que tu estás em mim
que em mim devo procurar - te e tu apenas existes porque eu existo
e eu não estou sò contigo mas è contigo que eu quero ficar sò
porque è a ti que eu te amo
amanhece è tarde anoitece
mas a nòs o que nos importa
ser manhã meio - dia ou noite ? !
sonâmbulo a vida decorre nas ruas
a paz larva dos grandes cemitério
dentro de nòs cada um apodrece
enchem - se de títulos vibrantes
os jornais mas tudo è tão longe
passam homens por homens
e não se conhecem
Boa tarde ! Bom dia !
cada um fechado nas suas fronteiras
os gestos vazios a vida sem sentido
sonambulismo apenas
acorda !
ainda que seja sò para o sobressalto
que as ilusões do sonho se desfaçam e as esperanças
morram todas nessa hora
acorda !
ainda que o caminho a percorrer te espante e o peso da obra
te esmague !
ainda que acordar seja morrer aos poucos em cada momento
dolorosamente !
que tem a foz em Liverpool
em Londres e em Nova - York
e no Rio e Buenos Aires
quando chega ao mar vai nos
navios cria seus lodos em garrafeiras
velhas desemboca nos Clubes e Bares
O Douro è um rio de barcos onde remam os barqueiros
suas desgraças primeiro se afundam em terra as suas vidas
que no rio se afundam as barcaças
nas sobremesas finas as garrafas assemelham cristais cheios
de rubis em Cape - Town em Sidney em Paris tem um sabor
generoso e fino o sangue que dos cais exportamos em barris
as margens do Douro são penedos fecundados de sangue e amarguras
onde cava o meu povo as vinhas como quem cava as próprias sepulturas
nos entrepostos dos cais em armazéns comerciantes trocam por esterlinos
o vinho que è sangue dos seus corpos moeda de pobre que são os seus destinos
em Londres os Lords em Paris os Snobs no Cabo e no Rio fazendeiros ricos
acham no Porto um sabor divino mas a nòs sò nos sabe à tristeza infinita
de um destino
o rio Douro è um rio de sangue por onde o sangue do meu povo corre
meu povo liberta - te ! liberta - te meu povo ! ou morre !
de mecânica velocidade tapando o horizonte com violentos leques de retórica ò meu amor ainda vivo eu quero ser a tua voz lúcida e ardente pa...