domingo, 25 de setembro de 2022

não

foi Guevara que te rasgou

com os punhais do frio

 pela manhã foi quando

te feri que um cão ladrou

das rosas veio o cheiro

da hortelã
 

De onde chegam estas palavras ?

nunca houve palavras para gritar

a tua ausência apenas o coração

pulsando a solidão antes de ti

quando o teu rosto doía no meu

rosto e eu descobri as minhas mãos

sem as tuas e os teus olhos não eram

mais que um lugar escondido onde

 primavera refaz o seu vestido de corolas

e não havia nome para tua ausência mas

tu vieste do coração da noite dos braços


da manhã dos bosques de Outono

tu vieste e acordas todas as horas

preenches todos os minutos


acendes todas as fogueiras

escreves todas as palavras


um canto de alegria desprende - se dos meus dedos

quando toco o teu corpo e habito em ti e a noite não existe

porque as nossas bocas acendem na madrugada uma aurora

de beijos


oh meu amor doem - me tanto os braços de te abraçar

trago as mãos acesas a boca desfeita e a solidão acorda

em mim um grito de silêncio quando o medo de te perde


è um corcel que pisa os meus cabelos  e se perde depois

numa estrada deserta por onde caminhas nua
 

Europa Acidental

aqui nem mal nem bem

aqui nem bem nem mal

aqui se alguém não è ninguém

è porque a gente nasce de um modo

Ocidental vivem uns bem e outros

mal e afinal è natural

naturalmente que haja gente tambèm

que è gente que è gente de bem e gente

que è apenas gente Europa Acidental

o mal è ter na nossa frente um mar de sal


um mar de gente que de repente è assim

mesmo de repente fica vazio e sem ninguém


se um dia por mal ou por bem quiser ser gente
 

sábado, 24 de setembro de 2022

dobrar a boca

o fio da espera calcar o passo

sobre o lume abrir o pão a golpe

do machado soltar pelo flanco

os cavalos de espanto

fazer do corpo um barco e navegar


a pedra regressar devagar ao corpo morno

beber um outro vinho pisado por um astro


possuir o fogo ruivo sobre a própria casa
 

eu sei

não te conheço

mas existes por isso

os deuses não existem

não existe a solidão e apenas

dói -me a tua ausência como

uma fogueira ou um grito

não me perguntes como mas

ainda me lembro quando no


Outono cresceram no teu peito 

duas alegres laranjas que eu apertei


nas minhas mãos e perfumaram depois

a minha boca


eu sei deixa - me inventar - te

ao è um sonho juro são as minhas mãos


sobre a tua nudez como uma sombra no deserto

è apenas este rio que me percorre há muito e desaguar


em ti porque tu ès o mar que acolhe os meus destroços

è apenas uma tristeza inadiável uma outra maneira de habitares


em todas as palavras do meu canto tenho construído o teu nome

com todas as coisas tenho feito amor de muitas maneiras docemente

desesperadamente à tua procura atè me dar conta que tu estás em mim


que em mim devo procurar - te e tu apenas existes porque eu existo

e eu não estou sò contigo mas è contigo que eu quero ficar sò


porque è a ti que eu te amo
 

Sonambulismo

tombam os dias inúteis

amanhece è tarde anoitece

mas a nòs o que nos importa

ser manhã meio - dia ou noite ? !

sonâmbulo a vida decorre nas ruas

a paz larva dos grandes cemitério

dentro de nòs cada um apodrece

enchem - se de títulos vibrantes

os jornais mas tudo è tão longe

passam homens por homens


e não se conhecem

Boa tarde ! Bom dia !


cada um fechado nas suas fronteiras

os gestos vazios a vida sem sentido


sonambulismo apenas


acorda !

ainda que seja sò para o sobressalto

que as ilusões do sonho se desfaçam e as esperanças

morram  todas nessa hora


acorda !

ainda que o caminho a percorrer te espante e o peso da obra

te esmague !

ainda que acordar seja morrer aos poucos em cada momento

dolorosamente !


 

PortWine

O Douro è um rio do vinho

que tem a foz em Liverpool

em Londres e em Nova - York

e no Rio e Buenos Aires

quando chega ao mar vai nos

navios cria seus lodos em garrafeiras

velhas desemboca nos Clubes e Bares


O Douro è um rio de barcos onde remam os barqueiros

suas desgraças primeiro se afundam em terra as suas vidas

que no rio se afundam as barcaças


nas sobremesas finas as garrafas assemelham cristais cheios

de rubis em Cape - Town  em Sidney  em Paris tem um sabor

generoso e fino o sangue que dos cais exportamos em barris


as margens do Douro são penedos fecundados de sangue e amarguras

onde cava o meu povo as vinhas como quem cava as próprias sepulturas


nos entrepostos dos cais em armazéns comerciantes trocam por esterlinos

o vinho que è sangue dos seus corpos moeda de pobre que são os seus destinos


em Londres os Lords em Paris os Snobs no Cabo e no Rio fazendeiros ricos

acham no Porto um sabor divino mas a nòs sò nos sabe à tristeza infinita

de um destino


o rio Douro è um rio de sangue por onde o sangue do meu povo corre

meu povo liberta - te ! liberta - te meu povo ! ou morre !
 

Ò vorazes Vozes

de mecânica velocidade tapando o horizonte com violentos leques de retórica ò meu amor ainda vivo eu quero ser a tua voz lúcida e ardente pa...